A reabilitação urbana foi o ponto de partida para uma reflexão alargada sobre os desafios atuais da habitação, numa mesa-redonda inserida no âmbito do lançamento da exposição “Wide Angle View – A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70”, promovida pela Ordem dos Arquitectos Secção Regional Norte.
Sob o mote "reabilitação como estratégia habitacional", o debate reuniu diferentes perspetivas — técnica, institucional e de investimento — em torno de uma ideia comum: a necessidade de encarar a regeneração como um processo integrado, que ultrapassa o edifício e se projeta na cidade como um todo.
Um dos nossos grandes objetivos é reforçar a regeneração urbana, olhando para a integração necessária nas intervenções. Não apenas no edificado, mas em toda a sua envolvente, afirmou Hugo Beirão Rodrigues, presidente do conselho de administração da Porto Vivo, SRU. A evolução registada no Porto nas últimas décadas foi também destacada, sublinhando-se o percurso de transformação da cidade desde meados dos anos 2000. “A reabilitação deve ser encarada como um sucesso, sempre num necessário equilíbrio entre arquitetura, engenharia e utilidade final”, acrescentou.
A complexidade dos processos de reabilitação foi outro dos pontos em análise. João Rapagão, arquiteto, salientou que “é muito mais fácil construir de raiz do que reabilitar”, defendendo a criação de condições que tornem este tipo de intervenção mais atrativo para o investimento privado. Incentivos fiscais, simplificação de procedimentos e maior previsibilidade nos licenciamentos foram apontados como fatores decisivos para reforçar a confiança dos agentes privados, enquadrando a reabilitação como uma opção não apenas técnica, mas também ética, alinhada com o direito à cidade.
Também do ponto de vista do investimento, a estabilidade do enquadramento legal foi identificada como condição essencial. Francisco Paiva Ribeiro, por parte da Invenio, sublinhou a importância de um contexto legislativo consistente, que permita decisões sustentadas no tempo e reduza a incerteza associada aos projetos de reabilitação. A sessão contou ainda com a participação de Bento Aires, da Ordem dos Engenheiros Região Norte, que reforçou a dimensão técnica e disciplinar do debate, centrado na forma como a Engenharia pode contribuir para respostas mais integradas e socialmente relevantes no domínio da habitação.
Igualmente abordada foi a intervenção da Porto Vivo, SRU, no âmbito da promoção do arrendamento acessível, nomeadamente na criação de respostas dirigidas à classe média, segmento particularmente pressionado no atual mercado habitacional.
Do debate resultou uma ideia consensual, a de que a reabilitação urbana não pode ser entendida de forma isolada. Ganhou relevância, quase em jeito de conclusão unânime, o papel da articulação entre políticas públicas consistentes e modelos de investimento viáveis, sempre com o firme propósito de garantir que a transformação da cidade se traduz em melhores condições de vida para quem nela habita.